Principio Bíblico da Plantação de Igrejas

Estamos vivendo o século 21, e ainda enfrentamos, um erro teológico grave, onde os cristãos, incluindo também os líderes, continuam chamando templo de igreja. Apontam para o templo dizendo ser ali a igreja e constantemente ouvimos expressões como construir, pintar, reformar, trocar janelas da igreja. Esse não é o conceito bíblico de igreja, mas surgiu a partir da construção de “igrejas”, pelo imperador Constantino no terceiro século da era cristã. E como o catolicismo romano foi dominando o mundo, as pessoas se habituaram a chamar o templo de igreja.
É preciso entender e aplicar o que aprendemos, pois não é ético ler uma coisa e fazer outra. Por isso vamos considerar o que a Bíblia ensina sobre esse assunto.
Na versão Almeida, século 21, temos 610 versículos com a palavra templo; sendo 532 vezes no Velho Testamento; 44 vezes nos Evangelhos; 29 vezes no livro de Atos; 4 vezes nas Cartas Paulinas e 1 no Apocalipse, todos se referindo ao local de adoração, culto ou sacrifícios como acontecia com o povo Judeu, e também entre povos pagãos que viveram períodos anteriores ao cristianismo.
A seguir algumas dessas referências encontradas no Novo Testamento: “…colocou-o na parte mais alta do templo… Mt. 4.5; …entrou no templo e expulsou todos que ali vendiam e compravam… Mt. 21.12; …tendo Jesus saído do templo… Mt. 24.1; …Jesus entrou em Jerusalém e foi ao templo… Mc. 11.11; …e andando Jesus pelo templo, os principais sacerdotes aproximaram-se dele… Mc.11.27; …enquanto estava no templo… Mc. 12.35; …quando saia do templo… Mc. 13.1; …em frente ao templo… Mc. 13. 3; …sentado no monte das oliveiras, em frente ao templo… Mc. 13.5; …movido pelo Espírito foi ao templo… Lc. 2.27; …ela não se afastava do templo… Lc. 2. 37; …três dias depois, eles o acharam no templo… Lc. 2.46; …de manhã cedo, ele voltou ao templo… Jo 8.2; …ensinarei nas sinagogas e no templo… Jo 18.20; …todos os dias no templo… At. 2.46; …Pedro e João subiram ao templo… At. 3.1; …então começou a andar e entrou com eles no templo… At. 3.8; …pedindo esmolas à porta Formosa do templo… At. 3.10; …ide, apresentai-vos no templo… At. 5.20; …todos os dias no templo e de casa em casa… At. 5.42; …mas o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos humanas… At. 7.4”.
Na mesma versão, Almeida século 21, encontramos 107 versículos com a palavra igreja, referindo-se a um grupo de pessoas, ainda que universal ou local. Nos evangelhos 2 vezes; em Atos 19 vezes; nas cartas, epistolas e no apocalipse 86 vezes. A igreja local é um corpo de cristãos batizados em Jesus Cristo que se reúnem para juntos cumprir a Grande Comissão.
Veja na lista algumas referências: “…edificarei a minha igreja…. Mt. 16.18; …dize-o à igreja… Mt. 18.17; …grande temor tomou conta da igreja… At. 5.11; …perseguição contra a igreja… At.8.1; …assolava a igreja.. At. 8.3; …a igreja desfrutava de paz… At. 9.31; …a notícia chegou aos ouvidos da igreja em Jerusalém… At. 11.22; …o rei Herodes decidiu matar alguns da igreja…At. 12.1; …mas a igreja orava a Deus… At. 12.5; …na igreja havia profetas e mestres… At. 13.1; …quando chegaram e reuniram a igreja… At. 14.27; …eles, acompanhados pela igreja… At. 15.3; …pareceu bem à igreja… Rm. 15.26; …serva da igreja em Cencréia… Rm. 16.1; …Cumprimentai também à igreja… Rm. 16.5”.
Ao analisar o princípio bíblico Plantação de igrejas, precisamos estar conscientes do conceito bíblico de igreja, pois isso determina o tipo de igreja que vamos plantar. Há uma diferença drástica entre essas duas palavras. Templo é um prédio, espaço ou estrutura física, construído com pedras, tijolos, ferro, madeira ou folhas de coqueiro como acontece em alguns lugares de difícil acesso, tribos indígenas ou comunidades ribeirinhas; é um local destinado para sacrifícios, adoração e outras atividades religiosas. A igreja é um grupo de pessoas que segue a Jesus Cristo, e se reúne no templo, nas casas ou qualquer outro espaço, até mesmo debaixo de uma árvore.
Conceituando igreja de acordo com o que lemos na Bíblia, podemos partir para a plantação de novas igrejas, mas ainda com cuidado, pois nossa tendência natural será pensar em congregações que funcionem como a igreja de origem, embora plantadas em culturas e circunstancias diferentes. Por isso o plantador de igrejas deve ter uma eclesiologia bem clara em sua mente antes de se lançar nessa tarefa. Observando o Novo Testamento descobriremos que as igrejas do primeiro século tomaram diversas formas, reunindo-se em vários lugares com diferentes ênfases e estruturas. Pessoas devem ser mais importantes do que estruturas.
Uma igreja local é uma comunhão de crentes em Jesus Cristo, comprometidos, a reunir-se regularmente para propósitos bíblicos sob uma liderança espiritual reconhecida.
Igreja é uma congregação de pessoas regeneradas, batizadas, que, associadas umas às outras, se reúnem voluntariamente sob as leis de Cristo e sob um pacto de fé e comunhão com o objetivo de entender o reino de Deus em suas vidas e na de outros, observando as ordenanças de Cristo, exercendo os dons que lhe foram concedidos e praticando a Koinonia, que é a expressão do amor em ação, razão de ser de sua existência como corpo de Cristo. O termo EKKLESIA ocorre 114 vezes no NT. 109 vezes no sentido cristão e 05 no sentido secular. 95 vezes aparece referindo-se à igreja como um grupo de crentes locais e 14 vezes igreja no sentido universal.

É preciso corrigir esse erro teológico que permeia nossas igrejas e também a liderança, de chamar templo de igreja, uma vez que isso está claro no ensino do Novo Testamento. Então ninguém constrói Igrejas, pinta ou troca as janelas da igreja, isso pode ser feito no templo. Lembre-se: Igreja é uma comunidade de discípulos, ou seja, uma comunidade em que os discípulos devem ser agregados e levados ao aperfeiçoamento cristão, à maturidade e multiplicação.
Encontramos no livro de Atos trinta e dois textos que destacam a plantação de novas igrejas. (Atos 9.31, 32; 9.35, 36; 11.19-21, 26; 13.4-5; 13.13-14; 14.1; 14.6-7; 14.20,21; 14.24,26; 15.40,41; 16.5; 16.9-10; 16.11-15; 17.1-4; 17.10-12; 17.15 e 34; 18.1 e 11; 18.18, 19; 18.23 e 26; 19.1, 9-10; 20.1-3; 20.6-7; 20.13-15; 21.1-4; 21.7, 8; 27.1; 28.30, 31). De acordo com o que lemos, nasceram igrejas na Judéia, Galiléia, Samaria, Lida, Sarona, Jope, Finícia, Chipre, Antioquia, Selêucia, Salamina, Pafos, Perge, Panfilia, Antioquia da Pisidia, Icônio, Listra, Derbe, Atália, Síria, Cilícia, Macedônia, Filipos, Tessalônica, Beréia, Atenas, Corinto, Éfeso, Galácia, Frígia, Grécia, Trôade, Assôs, Mitilene, Mileto, Tiro, Ptolemaida, Cesaréia e Roma. Igrejas nasceram em muitos lugares através da proclamação do Evangelho, discipulado e formação de liderança autóctone.
Plantar igrejas não é comprar terrenos ou construir templos como tem acontecido em alguns lugares em nosso país; é alcançar pessoas através da proclamação do Evangelho, levando-as a assumir um compromisso com Jesus Cristo, tornando-se discípulos d’Ele, isto é, pessoas dispostas a obedecer, seguindo seus passos.
Uma das primeiras coisas que devemos definir é o tipo de igrejas que queremos plantar. E estamos pensando em igrejas como organismo vivo, submissas ao Espírito Santo, obedientes a Jesus Cristo, o Mestre, que se reproduzem, e por isso, multiplicadoras. Para o plantio de igrejas com esse perfil, precisamos seguir a orientação.
1. CONHECER A COMUNIDADE

Para conhecer uma comunidade precisamos fazer uma boa pesquisa, que é uma metodologia sistemática de coleta de informações, e tem como meta principal gerar novos conhecimentos. As técnicas de pesquisa estão à disposição do Reino de Deus. Pesquisar as várias áreas de uma comunidade é uma das atividades no processo de plantação de igrejas, e nos leva a ter maior conhecimento da região onde se deseja trabalhar. Com uma boa pesquisa descobre-se os números de habitantes, domicílios, pessoas por faixa etária, economia, costumes, cultura. Esse mapeamento indicará onde devemos concentrar o trabalho na plantação de novas igrejas e as estratégias e metodologias que devemos usar.
Na Bíblia há relatórios de algumas pesquisas realizadas. Por exemplo: No Antigo Testamento foram realizados vários recenseamentos; nos livros de Êxodo, Números, 2 Crônicas e Neemias. No livro Números capitulo treze, vê-se o Senhor ordenando a Moisés que separasse doze espias representando as tribos de Israel para fazer um levantamento da real situação da terra de Canaã; que mais tarde voltaram trazendo um relatório a Moisés e ao povo Hebreu. No livro de Neemias, o encontramos com sua equipe andando ao redor da cidade de Jerusalém fazendo um levantamento dos estragos causados pelos inimigos, e o cálculo dos materiais necessários para a reconstrução dos muros.
Em o Novo Testamento encontramos Jesus Cristo percorrendo as cidades, onde percebeu as necessidades das pessoas, que andavam como ovelhas que não têm pastor, cada uma seguindo seu próprio caminho. Descobriu que faltavam obreiros, e desafiou a igreja a orar: “Então disse aos discípulos: Na verdade, a colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai ao Senhor da colheita que mande trabalhadores para a sua colheita”.
O próprio Jesus Cristo fez uma pesquisa de opinião pública quando no caminho para Cesareia de Filipe, perguntou aos discípulos sobre o que o povo pensava a Seu respeito. Quem dizem os homens ser o Filho do Homem? No livro de Atos, Lucas narrou o grande crescimento da igreja, apontando para os números de pessoas convertidas, 120, 3000, 5000 e assim por diante. A Bíblia nos motiva a realizarmos pesquisas para conhecer a realidade.
Jesus Cristo nos orienta a calcular as despesas antes de iniciar uma obra dizendo: “Pois qual de vós querendo construir uma torre, não se senta primeiro para calcular as despesas, para ver se tem como acabá-la”. Não podemos começar um trabalho de plantação de igrejas sem saber o melhor local, o custo, as estratégias que devemos usar e o perfil dos obreiros . Para saber essas coisas é preciso fazer pesquisa e mapeamento.
1.1. Pesquisa sócio religiosa
A pesquisa sócio religiosa divide-se em áreas, e uma delas é a densidade demográfica. Descobriremos o número de habitantes da região onde pretendemos plantar novas igrejas, número de domicílios, média de pessoas por domicilio, número de pessoas por faixas etárias (crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos…), o que facilitará a elaboração de estratégias para alcançar essas pessoas. Outra área dessa pesquisa é a econômica. É importante saber qual a maior fonte de renda das pessoas daquela comunidade, se indústria, comércio, agricultura ou pecuária; descobriremos onde reside a maioria das pessoas, se na sede do município ou na zona rural. Fonte de renda. Os indicativos são fatores importantes para planejar as estratégias e metodologias necessárias para alcançar essas pessoas.
Outras áreas pesquisadas é a educação. Saber o número de alfabetizadas, e o grau de instrução das pessoas da comunidade nos dão parâmetros para o tipo de material necessário para alcançar essa comunidade com a mensagem do Evangelho. Quando a índice de analfabetos é elevado, é necessário aplicar metodologias que os alcance também. Aqui entram as narrativas bíblicas e outros materiais que facilitam a evangelização discipuladora. Importante também é saber o número de escolas existentes na comunidade e a que faixas etárias atendem, pois há deficiências em alguns dos níveis de escolaridade a igreja pode atuar, suprindo aquela necessidade.
Conhecer a religiosidade das pessoas daquela comunidade também ajuda na elaboração do projeto de plantação de igreja e as estratégias e metodologias a serem usadas. Denominações presentes, igrejas evangélicas com quantidade de membros e atividades realizadas na comunidade ajudam na plantação da nova igreja. Fazer análise do movimento religioso da cidade ajudará no alcance das pessoas. De acordo com a religião podemos fazer o planejamento do que deve ser ensinado naquele local.
1.2. O mapeamento
Tenha um mapa das localidades onde serão plantadas as novas igrejas. Pode – se fazer um requerimento à Prefeitura, que fornecerá os mapas dos bairros ou da cidade inteira. Outro método é conseguir o mapa através da internet. Pode ser baixado ou salvo. Lembre-se que boa parte das informações que precisamos se encontram em sites do IBGE.
Após conseguir informações populacionais e o mapa, o plantador deve caminhar pelas ruas, reconhecendo a área. Nessa altura há outras informações importantes que precisamos ter da área: a localização das igrejas evangélicas que podem ajudar ou apoiar no trabalho de evangelização do grupo alvo. Localização das fortalezas espirituais (locais que prendem as pessoas ao pecado), como centros espíritas, templos católicas, boates, boca de fumo.
Essa pesquisa pode ser feita a pé (utilizando um ônibus para chegar ao local a ser pesquisado), de bicicleta, motocicleta, ou automóvel. Se houver pessoas suficientes, pode-se dividir o trabalho entre várias equipes de duas ou três pessoas. Tenha em mãos os mapas do bairro ou cidade; pranchetas para apoiar os formulários de pesquisa; canetas de cores diferentes. Anote o nome das ruas que visitou, localize no mapa as igrejas genuinamente evangélicas existentes, com endereço, ponto de referência, nome do pastor, número de membros. Nome e endereço das fortalezas inimigas, também identificar no mapa; centros espíritas, templos católicos, boates, bares.
Observe outros dados: escolas, teatros, praças, ginásios, feiras livres, comunidades carentes. São locais em que o pastor futuramente poderá plantar novas igrejas, e de acordo com a realidade encontrada usará uma plataforma de acesso a estes lugares.
A partir desses dados será possível observar onde o missionário deve trabalhar e como são esses locais. Às vezes são minados com fortalezas inimigas, mas isso não deve levar o obreiro temer ou desistir; ao contrário, deve desafiá-lo a investir em constantes caminhadas de oração. Com os resultados da pesquisa o obreiro identificará a necessidade ou não de plataformas para chegar às pessoas, e o tipo de plataforma que deve usar. O ideal é que esse mapeamento seja bem simples e criativo.

2. CONTEXTUALIZAÇÃO DO EVANGELHO

Esse é um assunto pouco estudado e discutido no meio cristão. Quando pensamos na necessidade de contextualização do Evangelho, não estamos fazendo referência apenas aos diferentes contextos e culturas em que as pessoas vivem, mas estamos dizendo que a contextualização é mais abrangente, e que precisamos pensar também nas diferenças entre as faixas etárias em nossas comunidades. Pois os resultados da não contextualização da mensagem são visíveis em nossas igrejas, que além de perder as faixas etárias mais jovens, filhos e netos de cristãos, não conseguem alcançar o coração das pessoas não cristãs nessas mesmas faixas etárias. A contextualização implica em aspectos importantes, tais como a tradução da Bíblia, a pregação, os cânticos, a liturgia, o ensino; tudo deve ser contextualizado, é claro, de forma crítica.
Na pregação e ensino de Jesus Cristo e dos apóstolos aprendemos muito sobre contextualização. Só no livro de Atos encontramos dezesseis textos referindo-se ao assunto: (Atos 2.1-13; 5.19-20; 6.1; 6.14; 8.14; 8.26-40; 10.9-23; 10.34-35; 11.1-3; 11.18; 11.20-24; 13.13-42; 15.1; 15.10; 17.22-34 e 21.26).
1.1. Contextualização da Bíblia
Ao trabalhar com jovens e adolescentes, percebemos que uma das maiores dificuldades para o crescimento espiritual era a falta de leitura e estudo da Bíblia; eles gostavam da Bíblia e a amavam, carregavam um exemplar para todos os lugares, mas não conseguiam entendê-la, e isso era um obstáculo para aqueles novos convertidos; eles tinham a Bíblia, mas não entendiam sua mensagem. Frequentemente perguntavam o que era côvado, lascívia, circuncisão, hora sexta e centenas de outras palavras difíceis, que até pessoas mais cultas precisam do dicionário para descobrir o significado.
Quando usamos uma versão contextualizada, os mais novos se apaixonaram pela leitura e o crescimento espiritual foi notório. Mas para muitos irmãos que tinham mais tempo de vida cristã aquelas versões eram adulteradas, e não suportavam ouvi-las, apesar de muitos deles também não entenderem o que liam. Usar uma versão bíblica fora do contexto de um povo é um desrespeito à cultura, pois passam anos na frequentando os cultos e estudos bíblicos sem entender o verdadeiro sentido da Palavra de Deus. Infelizmente só nas últimas duas décadas que as versões contextualizadas estão à disposição do povo, apesar da resistência encontrada em algumas igrejas.
1.2. Contextualização da pregação
Sabemos que é difícil fazer isso sem conhecer a cultura do povo receptor. O missionário precisa mergulhar na cultura do povo para onde foi enviado, ou então pouco poderá fazer em seu favor. A partir de Jesus, os pregadores que encontramos no Novo Testamento nos dão um banho sobre a contextualização da mensagem pois procuraram falar ao coração das pessoas e por isso o Evangelho alcançou multidões, ainda no primeiro século, com milhares de pessoas convertidas a Cristo. Por outro lado, o Evangelho no Brasil ainda não chegou em todos os lugares, pois muitas pessoas o rejeita, não pelo seu conteúdo, mas pela forma como tem sido apresentado. O Evangelho no Brasil ainda tem muito da cultura daqueles que o trouxeram. E vale acrescentar que dentro de nosso país, há uma boa variedade de culturas, além das 210 etnias que aqui residem. Então cada pregador ou mestre precisará contextualizar a mensagem para o seu grupo alvo.
1.3. Contextualização dos cânticos e ritmos

Em cada região do Brasil há um ritmo musical que é do coração, faz parte da cultura daquele povo. Por que não aproveitar a música para levar a mensagem do Evangelho às pessoas? Podemos usar cânticos de outros contextos, mas não negligenciar o contexto onde estamos inseridos. Se quisermos falar ao coração de um povo precisamos usar os ritmos daquela cultura. Lembro-me da mudança ocorrida no sertão onde trabalhamos por dezesseis anos. Enquanto usávamos ritmos importados não víamos muito interesse nas pessoas, mas quando mudamos para o ritmo regional, centenas de pessoas paravam no meio das feiras livres e praças para cantar e ouvir o Evangelho. Quando a sanfona, a zabumba e o triângulo começavam a tocar a feira quase parava e as pessoas vinham para ouvir o Evangelho. Não podemos esquecer que os ritmos fazem parte da cultura das pessoas e os instrumentos musicais também.
1.4. Contextualização da liturgia
Os cultos em muitas igrejas brasileiras acontecem como se estivessem na América do Norte. Liturgia norte-americana, inclusive a vestimenta do pastor e dos membros da igreja. Que pena que a liturgia não tenha sido contextualizada em algumas regiões! Com isso milhares de pessoas que foram membros de nossas igrejas estão fora da igreja e do Evangelho, não foram tocadas o suficiente para se sentirem bem entre o povo de Deus. Outros milhões estão nas igrejas não porque gostam e se sentem bem, mas por causa da tradição familiar. A liturgia precisa envolver as pessoas de todas as gerações na verdadeira adoração a Deus. Precisa trazer alegria e satisfação às pessoas que participam de um culto. Mas em nome da tradição muitas igrejas estão perdendo seus membros, infelizmente.
1.5. Contextualização do ensino

Precisamos ter coragem de fazer as mudanças necessárias para que o ensino envolva as pessoas a ponto de terem alegria, prazer de ir ao templo para serem ensinadas. Um exemplo disso é o dia e horário para o estudo da Bíblia. É evidente que as igrejas que mais crescem no mundo são aquelas que estudam a Palavra de Deus em pequenos grupos nos lares das pessoas. Enquanto outros acham que todos devem ir ao templo para estudar a Bíblia. Quem está ganhando com isso? É claro que são as igrejas ou denominações que trabalham com pequenos grupos, que evangelizam, discipulam e treinam pessoas nos pequenos grupos multiplicadores.
1.6. Preparar liderança autóctone é contextualizar

A negligência na capacitação de pessoas do povo receptor do Evangelho tem impedido a multiplicação de discípulos e igrejas. As igrejas que mais estão alcançando pessoas são as que investiram em liderança autóctone. Enquanto os pastores e missionários não investirem na formação de liderança autóctone, não alcançaremos a Pátria para Cristo. Precisamos treinar o índio para ganhar seu próprio povo; treinar o ribeirinho para ganhar seu próprio povo; precisamos treinar o sertanejo se queremos ganhar os sertões desse imenso país para Jesus Cristo; precisamos treinar os gaúchos se queremos que o Rio Grande do Sul seja alcançado com a mensagem do Evangelho.
Experimentamos essa transformação no sertão paraibano, onde o trabalho se arrastou por muitos anos, mas quando a liderança das igrejas surgiu do meio do povo, elas firmaram seus passos e se fortaleceram na Palavra de Deus. Lamento até hoje quando me lembro do que vi na tribo dos índios Guajajaras, no Maranhão. Em plena floresta, tarde quente, encontrei índios com terno preto e gravata, vivendo completamente fora de seu contexto. O missionário ou pastor que pregou o Evangelho nesse lugar cometeu um grande erro, tirando os índios de seu contexto, que com isso foram rejeitados pelo restante da tribo.
Uma igreja autóctone normalmente é contextualizada e está inserida na cultura do povo. O templo, a ornamentação, a liderança, tudo precisa ter cheiro do povo local. A contextualização facilitará o alcance das pessoas com o Evangelho de Jesus Cristo, que foi nosso maior exemplo de contextualização.

3. COMUNICAÇÃO DO EVANGELHO

Outra questão é a comunicação do Evangelho. “Pregar” é diferente de “Comunicar”; podemos gastar muito tempo falando, sem comunicar absolutamente nada; realizar programas evangelísticos através da música, sermões, palestras, estudos bíblicos nos lares e rádio não significa dizer que as pessoas estão sendo alcançadas ou que estão entendendo o Evangelho. Para crescimento e plantação de novas igrejas é vital que comuniquemos a Palavra de Deus, e isso só acontece quando o receptor compreende, assimila o que estamos dizendo o que ajudará na tomada de decisão diante da mensagem que ouviu. A isso chamamos oportunidade válida para crer em Jesus Cristo.
O fracasso na comunicação deixa o obreiro vulnerável à tentação de mudar de campo ou até mesmo transferir-se para outros ministérios. A deficiência na comunicação torna-se uma das principais causas de mudanças nos ministérios em centenas de igrejas em nosso país. Há pastores que não ficam muito tempo em um determinado lugar porque não alcançam o coração das pessoas, e, por isso passam a vida mudando de local ou de igreja. Não estou dizendo que todas as experiências de ministérios curtos são causadas pela falta de comunicação, mas que isso tem influenciado bastante na mudança de local ou ministério de muitos obreiros.
3.1. A importância da comunicação

Lembramo-nos de um colega que nunca passou mais de dois anos no pastoreio de uma igreja; rapaz inteligente e muito esforçado, mas não conseguia permanecer diante de um rebanho por muito tempo. Em menos de vinte anos passou por doze igrejas, entre a Paraíba e Rio Grande do Norte; depois mudou – se para outra denominação; agora voltou para nosso meio, atuando no estado do Ceará e Piauí. O problema sempre foi comunicação: as igrejas não conseguem passar mais que dois anos ouvindo suas mensagens e estudos. Um dia o procuramos e dissemos que precisava fazer uma avaliação nesse aspecto de seu ministério, e ele nos disse que não faria qualquer mudança, pois havia passado a vida estudando e não abriria mão de seu nível de conhecimento para se rebaixar às pessoas mais humildes. Na verdade, as pessoas não conseguem entender aquilo que o colega diz. Que pena que não teve interesse em comunicar o Evangelho às pessoas que Deus colocou sob a sua responsabilidade! Conheço bons obreiros, com excelente bagagem de conhecimento, mas que não conseguem comunicar a mensagem aos seus ouvintes.
Esse é um grave problema e tem sido uma das causas de tão poucos resultados no trabalho. Há missionários que vivem essa mesma dificuldade, e passam anos seguidos anunciando o Evangelho com poucos resultados para o Reino de Deus, pois as pessoas não se convertem a Jesus Cristo, não porque são duras de coração, mas porque não compreendem o que está sendo ensinado. Quantos estão falando durante três ou quatro anos sem colher qualquer fruto? A comunicação é essencial para que as pessoas creiam em Jesus Cristo como Salvador e Senhor de suas vidas. Ao trabalharmos o tema “pré-evangelização”, destacamos dois pontos cruciais: para que uma pessoa creia em Jesus Cristo e o receba como Salvador e Senhor, precisará ter simpatia dos cristãos e da igreja, e conhecimento do Evangelho, e o pré-evangelista trabalha essas duas áreas. Uma boa comunicação faz as duas coisas. Leva a pessoa a gostar do Evangelho, ter simpatia e ao mesmo tempo adquire conhecimento; leva os ouvintes à compreensão do Evangelho.
Quando cumprimos nosso trabalho como anunciadores de Boas Novas e não vemos resultados, precisamos avaliar nosso trabalho. A Bíblia diz que aquele que muito semeia, colherá em abundância; e afirma também que a Palavra de Deus não volta vazia, antes fará o que apraz a Deus. Mas essa mensagem precisa ser comunicada o que só acontece quando entendida ou compreendida pelo receptor.
3.2. Há comunicação quando o receptor entende a mensagem

Deus é o maior interessado na comunicação do Evangelho de Jesus Cristo. Gosto muito da observação do escritor Charles Brock, quando afirma que a incidência das línguas em pentecostes evidencia o milagre da comunicação. De fato, Deus queria que todos os Judeus que estavam em Jerusalém por ocasião da festa de Pentecostes entendessem a mensagem pregada pelos apóstolos. Aquela ocasião era muito especial para os judeus que vinham de vários países para a festa em Jerusalém, e Deus usou aquele evento para que o Evangelho fosse pregado e compreendido por todos aqueles judeus que eram vindos de aproximadamente quatorze países diferentes. O apóstolo Simão Pedro pregou e cada um entendeu na língua em que eram nascidos e isso fora citado três vezes nos primeiros treze versículos de Atos dois. O milagre de pentecostes, foi o da comunicação do Evangelho, pois Deus queria que todas as pessoas entendessem a Boa Nova de salvação.
Estavam em Jerusalém Judeus piedosos, de todas as nações que há debaixo do céu. E todos ficaram confusos, pois cada um os ouvia falar na sua própria língua. Como, então, cada um de nós os ouve falar em nossa língua materna? Todos nós os ouvimos falar das grandezas de Deus em nossa própria língua. Desse modo, os que acolheram a sua palavra foram batizados; e naquele dia juntaram-se a eles quase 3 mil pessoas.

Nosso país é de uma variedade cultural incrível e não há dúvidas de que o estado de Santa Catarina é muito diferente do estado da Paraíba, principalmente do sertão. As regiões do Brasil são diferentes umas das outras, e os pastores e missionários precisam ter consciência disso e contextualizar a mensagem do Evangelho se quiserem ter maiores resultados. Não podemos fazer as coisas da mesma forma em todo o território nacional e esperar bons resultados. Temos cometido graves erros no programa de evangelização de nosso país e parece que não queremos aprender as lições. Preferimos ficar com meia dúzia de cristãos em nossos templos do que abrir mão de nossa tradição e contextualizar a mensagem bíblica.
No Rio Grande do Sul a maioria dos obreiros batistas são de outros estados e apenas alguns são gaúchos; aqui está um indicativo dos poucos e lentos resultados naquele estado. Não há mal em que os obreiros sejam de fora, desde que contextualizem a mensagem e formem liderança local para o trabalho missionário da igreja. A maioria dos obreiros não trabalha na formação de líderes autóctones, e isso prejudica o processo de salvação no meio de um povo. Ninguém está mais habilitado do que as pessoas da cultura para pregar ao seu próprio povo. Onde o trabalho tem resultados menores é porque seus líderes ainda não se despertaram para a formação de líderes dentro da cultura. Não estou dizendo que não devemos ter obreiros vindos de outras culturas, mas quando não acontece o despertamento e formação de líderes autóctones o crescimento é mais lento.
Essa é também a grande dificuldade do trabalho indígena. Quantos anos de trabalho entre os índios no Brasil? E quais os resultados desse trabalho na maioria das tribos? Não devemos ter medo de avaliar, pois é o ponto de partida para melhorar nossa atuação nessa área. Visitei uma tribo no sul do Brasil, onde a presença de missionários passa de três décadas e o trabalho não avançou como poderia ter avançado. Não há líderes indígenas pregando no meio de seu povo. E digo sem medo de errar: se os missionários saírem de algumas tribos hoje, o trabalho acaba. Graças a Deus que alguns obreiros que estão nas tribos atualmente já perceberam a necessidade de investir na liderança autóctone. Pois são os índios que alcançarão os índios para Jesus.
O sertão da Paraíba não é diferente de qualquer outra região do Brasil em suas necessidades espirituais – povo idólatra, indiferente ao Evangelho e festeiro. O trabalho batista iniciou com obreiros vindos de outros estados e não desenvolveu como poderia; foi um trabalho inconstante, e dependente de líderes vindos de outras regiões; quando tinha obreiro, crescia; mas quando faltava obreiro, voltava quase a zero. Um exemplo disso foi a Igreja de Piancó, que, com vinte anos de organização oficial e vinte e sete anos de trabalho, contava em fevereiro de 1985, com oito membros, apenas seis presentes e só abria o templo quando alguém ia de fora para realizar um culto. Essa igreja nunca havia plantado uma nova igreja.
Ficamos muito preocupados com a situação e decidimos orar a Deus e fazer um trabalho diferenciado; pregamos o evangelho, discipulamos e treinamos pessoas e juntos conseguimos plantar igrejas em cidades próximas, e assim o trabalho cresceu e se fortaleceu no Senhor. E a partir do momento em que a liderança das igrejas veio do próprio povo, o trabalho tomou uma nova forma, e as igrejas passaram a crescer e se multiplicar. As pessoas do local comunicam muito mais o Evangelho do que alguém que vem de fora. Conhecer as pessoas em todos os aspectos de sua cultura ajudará na comunicação do Evangelho, e com isso os resultados serão bem maiores.

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